O Papa Bento 16 protestou formalmente contra a exposição, num museu de Bolzano, no norte da Itália, de uma obra de arte que retrata uma rã verde crucificada como Jesus Cristo, informou nesta quarta-feira o governador do Tirol, Franz Pahlco.A reclamação formal do pontífice foi feita em carta endereçada ao governador, com data de 7 de agosto – durante o período em que Bento 16 esteve de férias na região.
Na correspondência o líder dos católicos criticou a exposição da escultura Primeiro os Pés (“Zuerst die Füsse”, em alemão), do artista alemão Martin Kippenbeger.
A peça tem um metro de altura e é feita de madeira pintada de verde. Ela retrata uma rã crucificada que, em uma das “mãos”, segura um ovo e, na outra, uma jarra de cerveja.
“[A obra] feriu o sentimento religioso de muitas pessoas que vêem na cruz o símbolo do amor de Deus e da nossa salvação, que merece reconhecimento e devoção religiosa”, diz a carta.
Pahlco é candidato do partido conservador SVP nas eleições regionais de outubro, e um dos mais fortes opositores da obra de Kippenberger. Ele chegou a fazer greve de fome contra a exposição da “rã crucificada”.
“A minha batalha não terminou”, declarou ao terminar a greve.
‘Remoção’
Martin Kippenberger é considerado um dos nomes mais importantes da arte contemporânea européia dos anos 80 e 90 e chegou a ser comparado com Andy Warhol, um dos expoentes da “pop art”. Morreu em 1997, aos 44 anos de idade, e sua carreira foi marcada por obras polêmicas.
Segundo o artista, a escultura da rã representa uma sociedade hipócrita, corrompida internamente enquanto que mantém uma imagem exterior irrepreensível.
Logo que foi exposta como parte da mostra Olhar periférico e corpo coletivo, no Museu de Arte Moderna e Contemporânea de Bolzano, em maio passado, recebeu criticas da comunidade católica, do bispo local e de grupos conservadores.
Desde então, as polêmicas em torno da “rã crucificada” não pararam, mas a direção do museu recusou o pedido de diversos grupos católicos e autoridades religiosas para que a obra fosse retirada da mostra.
A diretora, Corinne Diserens, que sempre defendeu a escultura, apenas mudou a obra de lugar – antes ela estava exposta na entrada do prédio, depois passou para o terceiro andar .
“Não é prevista a remoção (da obra), e nenhuma mudança na montagem da mostra até o dia de encerramento, em 21 de setembro”, disse Corinne Diserens aos jornais italianos.
Pop art
Martin Kippenberger é considerado um dos nomes mais importantes da arte contemporânea européia dos anos 80 e 90 e chegou a ser comparado com Andy Warhol, um dos expoentes da “pop art”. Morreu em 1997, aos 44 anos de idade, e sua carreira foi marcada por obras polêmicas.
“Com ironia, brincando, mas com consciência, ele colocou em xeque tradições existentes e tabus sociais e enfrentou o aspecto trágico da vida e da morte”, diz o catálogo da exposição.
Nos anos 90, o artista passou um período na região do Tirol, onde colaborou com artesãos locais para realizar uma série de esculturas.
De acordo com as informações divulgadas pelo museu, naquele período, Kippenberger tratou o tema do sofrimento em várias obras. Uma delas, um vídeo, mostrava o próprio artista sendo crucificado.
Segundo a assessoria de imprensa do museu, durante a permanência no Tirol, Kippenberger freqüentava os bares típicos da região, “onde se consome cerveja de forma desmedida, piadas são contadas e se comenta sobre sexo, debaixo do tradicional crucifixo, normalmente pendurado nestes lugares”.