Tenho assistido com interesse a vários documentários que têm marcado os 5 anos da Invasão do Iraque. Normalmente é preciso um máquina calculadora, daquelas com possibilidade para inserir muitos dígitos, para se poder compreender a verdadeira dimensão deste conflito. Eles são os mais de 4 mil americanos mortos (uma espécie de world trade centre e meio derrubado), entre 80 a 90 mil civis mortos (há quem fale em 500 mil!), uns quantos mais guerrilheiros (rebeldes insurrectos no entender dos americanos) e 600 biliões de dólares gastos (em euros fica mais barato), etc.

 Para além destes dados que fazem a delícia de qualquer apaixonado pelos números e estatística, temos pequenas histórias do mundo real que nos fazem perceber as reais consequências desta guerra e a hipocrisia de quem conduz homens e mulheres ao abismo em nome sabe-se-lá-do-quê-tipo-controlo-do-mundo-e-das-suas riquezas, enquanto que se refastelam nas suas poltronas a vários milhares de quilómetros.

 Nos últimos 2 programas que vi na rtp2, pude ouvir primeiro os lamentos de uma família iraquiana que a apesar da sua formação académica e excelentes condições de vida, criticavam de forma veemente a forma de actuar das forças de ocupação, a altíssima taxa de desemprego e as poucas ou nenhumas prespectivas de futuro do seu país. O “chefe de família” resumiu com uma frase o estado de alma daqueles gentes:

“Se não temos segurança, se não temos futuro, de que nos serve ter liberdade?…”

 Depois foi a vez de termos uma perspectiva do lado daqueles que mal conhecendo o seu país, mal sabendo pegar numa arma, desconhecendo por completo o que lhes esperava, foram “desafiados” a salvar a “honra” do país num lugar muito distante dos seus acolhedores lares.

 Nesse programa, intitulado “Alive Day“, foram-nos apresentados diversos militares americanos, quase todos eles com 20 e poucos anos, que foram alvo de acidentes e/ou emboscadas no Iraque e que foram gravemente feridos. Em alguns casos perderam ambas as pernas, noutros os braços, foram sujeitos a dezenas de cirurgias, estão irremediavelmente afectados psicologicamente, os seus sonhos foram desfeitos e estão toalmente ou quase dependentes de terceiros. Resumidamente e por mais cruel que seja é mesmo assim que se encontram dezena de milhares de americanos. Irónica e hipocritamente, instituiu-se nos EUA e respectivas forças militares, a figura do Alive Day (Dia da sobrevivência), no qual se pretende celebrar o dia em que estes jovens conseguiram sobreviver à eminência da sua morte. Pelo que pude constatar, a partir do momento em que um militar sobrevive a um ataque dos “malfeitores” que ousam desafiar a grande nação do tio Sam, ficando mutilado e funcionalmente incapaz para a maioria das tarefas, começa a comemorar anualmente 2 aniversários, o original e o tal “alive day”. Nesse dia é reunida a família, há comes e bebes e recorda-se o dia em que heroicamente se fugiu à morte.

 Dos diversos convidados ao programa, quase todos eles encararam com naturalidade a celebração desse dia. A maioria com pouca convicção disse que “só esperava que o seu sacrífico não tivesse sido em vão”, mas que “era um enorme orgulho representar o país”. Quase todos eles estavam resignados à sua condição e procuravam de uma forma ou outra dar continuade à sua vida mais ou menos fútil. Como não seria de espantar estes militares, ou por outras palavras, estes autênticos hamburgeres humanos ou “carne para canhão” como se diz em linguagem corrente, ostentavam nas suas casas diversas bandeiras azuis, vermelhas e brancas, com meia centena de estrelinhas, e exibiam com orgulho as medalhas de mérito recebidas pelo seu serviço em nome da pátria. Diziam eles (very ironic mode):

“não temos pernas, braços nem cabeça, mas temos umas medalinhas oferecidas pelo tio Bush.. Yupppiiiiiii!!!

 Apesar do “inimigo” ser os EUA, é confrangedor assistir ao abuso e a lavagem cerebral que os líderes desse país fazem do seu povo. Sentimo-nos impotentes para travar o imperialismo americano quando ouvimos elogios e o engrandecer de uma pseudo-democracia, da boca daqueles que dão a vida em nome dos delírios do seu presidente alcoóltra e analfabeto.

 No entanto, no meio da carneirada e do pensamento manipulado, há sempre alguém que tem um mínimo de consciência e que consegue ter algum discernimento para questionar a lavagem que lhe vão fazendo. Digo isto, depois de no meio de tantos testemunhos fiéis à pátria, surgir um jovem-revoltado que pergunta:

 “..porque é que temos de celebrar o Alive Day como se fosse algo de bom, quando no fundo estamos a celebrar o pior dia das nossas vidas?”

“..porque é que no meio de cirurgias e tratamentos fazem-nos recordar o dia que nós só queremos esquecer”

“..porque é que nos querem transformar heróis em nome de uma causa em que nós próprios já não acreditamos”